Especialista diz que governadores não controlam plenamente as polícias

O avanço de operações policiais marcadas por alto número de mortes reacendeu o debate sobre segurança pública no Brasil e colocou em xeque o real controle dos governadores sobre as forças policiais. Pouco mais de três meses após a operação mais letal já registrada no país, o tema voltou ao centro das atenções com alertas sobre o uso irrestrito da força como política de segurança. Dados recentes apontam que forças policiais mataram 5.920 pessoas entre janeiro e novembro de 2025. O episódio mais extremo ocorreu em 28 de outubro, no Rio de Janeiro, durante a chamada Operação Contenção, que deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais. Para especialistas, o caso simboliza uma estratégia que, longe de reduzir a violência, tende a aprofundar a insegurança. “Nenhum governador tem poder pleno” Para a socióloga Carolina Grillo, pesquisadora de conflitos, crimes e violência, há um empobrecimento do debate público e uma insistência em repetir modelos que falham há décadas. Segundo ela, não é possível afirmar que governadores exerçam controle efetivo sobre as polícias estaduais. “Em nenhum estado se pode dizer que o governador possui efetivo controle das forças de segurança. As instituições policiais possuem grupos muito poderosos no seu interior e uma relativa autonomia”, afirma. De acordo com a pesquisadora, os próprios agentes que atuam nas ruas exercem ampla discricionariedade, o que amplia o risco de abusos quando há respaldo político. Modelo do Rio se espalha pelo país Grillo aponta que estados como São Paulo e Bahia passaram a reproduzir o modus operandi historicamente adotado no Rio de Janeiro, marcado por grandes operações e alta letalidade. Para ela, essa replicação não apenas falha em conter o crime organizado como agrava problemas que antes não existiam nesses territórios. Em São Paulo, por exemplo, o avanço da letalidade policial ocorre em um estado que, historicamente, não enfrentava controle territorial armado em larga escala. Já na Bahia, o padrão de confrontos intensos também cresce, impulsionado pela popularidade política desse tipo de ação junto à população. Letalidade rende dividendos políticos Na avaliação da especialista, operações espetaculosas com elevado número de mortes seguem sendo usadas como ferramenta política. Mesmo reconhecendo a baixa eficácia no enfrentamento estrutural do crime, governantes colhem ganhos eleitorais ao transmitir a sensação de ação e autoridade. “A cada nova operação desse tipo, há um aumento da popularidade dos mandatários que a autorizaram, porque se cria a percepção de que algo está sendo feito”, explica. Em contraste, ações de inteligência e investigações complexas, que têm maior impacto no desmantelamento de organizações criminosas, tendem a ser silenciosas e menos exploradas politicamente. Impunidade e respaldo institucional Outro ponto central levantado por Grillo é a naturalização das mortes provocadas por agentes do Estado. Segundo ela, quando governadores e secretarias de segurança legitimam previamente ações policiais letais, antes mesmo da apuração dos fatos, cria-se uma promessa tácita de impunidade. Esse respaldo institucional, afirma, não se limita ao Executivo. Investigações raramente esclarecem as circunstâncias das mortes, perícias deixam de ser realizadas e a versão policial acaba prevalecendo como principal prova. O resultado é o arquivamento sistemático dos casos, com aval do Ministério Público e da Justiça, e a consequente satisfação de parte da opinião pública. Segurança domina debate eleitoral Com a proximidade das eleições, a segurança pública se consolida como um dos temas centrais da disputa política. Pesquisas recentes mostram que, pela primeira vez, a área superou saúde, educação e desigualdade como principal preocupação da população. Apesar disso, o espectro do debate segue limitado. De um lado, discursos que defendem abertamente o extermínio de criminosos; de outro, propostas que se restringem ao endurecimento penal. Para a pesquisadora, nenhuma dessas abordagens enfrenta o problema estruturalmente. O aumento do encarceramento em massa, alerta, acaba fortalecendo organizações criminosas ao ampliar a população carcerária sob seu domínio. Crise estrutural sem solução simples Para Carolina Grillo, a atual política de segurança revela uma crise mais profunda: ausência de controle efetivo, incentivo indireto à violência policial e uso eleitoral do medo. Enquanto modelos fracassados seguem sendo reciclados, o país assiste ao aumento da letalidade sem avanços concretos na redução da violência. “O que se repete é o respaldo institucional à ação policial letal”, resume. Um cenário que, longe de trazer segurança, aprofunda a instabilidade e empurra o debate público para soluções fáceis e ineficazes.
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