Desaprender e aceitar erros impulsionam uso da IA, afirma CEO do WhatsApp no Brasil
Inteligência Artificial é a expressão da moda em diversos setores, mas será que as companhias brasileiras estão prontas para a implantação de automação via IA em suas práticas do dia a dia? O CEO do WhatsApp no Brasil, Guilherme Horn, usou o seu conhecimento na área para escrever o livro ‘Mindset de IA‘ (Ed. Gente). Na obra, ele aponta que, mais do que mudanças operacionais, as empresas precisam mudar de mentalidade para não ficarem para trás e ter sucesso quando o assunto é automação e o uso das IAs generativas. Para ele, as empresas precisam se permitir errar com a IA. “Os profissionais precisarão desaprender muitas das práticas que utilizaram até hoje e reaprender a extrair o verdadeiro potencial da tecnologia, entendendo como pode gerar valor contínuo para os processos e para o conhecimento da organização. A IA pensa, mas a decisão final e a responsabilidade continuam sendo humanas. É fundamental não ter medo de falhar e não reprimir os erros dentro da empresa”, afrima Horn. Principais pontos da entrevista com Guilherme Horn O que o seu livro traz de diferente do que vem sendo debatido sobre IA nas empresas? O grande diferencial está em focar no modelo mental (mindset) necessário para a implementação da IA, ao invés de tratar o tema apenas como a adoção de uma nova ferramenta técnica. Em vez de se concentrar na simples operação de plataformas, o debate deve ser o que os líderes, executivos e empreendedores precisam desaprender de suas vivências passadas e o que devem reaprender para lidar com essa inovação. O principal objetivo do livro é ensinar como compreender o verdadeiro potencial da tecnologia para gerar valor real para o negócio, para os processos internos e para o conhecimento acumulado da organização. O sucesso com a IA não se resume a implementar ou adotar um sistema tecnológico, mas sim a uma necessidade profunda de transformar todo o negócio por meio da adoção de uma mentalidade adequada para usufruir de verdade de tudo o que essa tecnologia tem a oferecer. Muitos empresários ainda temem o uso de IA em processos mais elaborados nas empresas. O que você diria para esse executivo? Os executivos e empresários devem encarar o erro nessa implementação como uma parte absolutamente essencial do processo de experimentação com a Inteligência Artificial, não devem ter medo de estimular ao máximo que as equipes experimentem a tecnologia. É fundamental não ter medo de falhar e não reprimir os erros dentro da empresa. O próprio Elon Musk comemorou a explosão de um de seus foguetes justamente pelo conhecimento valioso extraído daquele evento. À medida que a empresa treina e aprende com os próprios erros, ela adquire um ganho muito grande de maturidade. Os líderes precisam aceitar esse trade-off e entender que é natural testar diversas abordagens que talvez não tragam retorno financeiro imediato ou que acabem sendo descartadas mais tarde, mas apenas passando por essa fase prática é possível descobrir se realmente vale a pena usar a IA em determinados processos. Cultivar essa tolerância à falha e a experimentação contínua é o conselho central para criar o modelo mental adequado e bem-sucedido na adoção dessa tecnologia. Mas claro que o elemento humano vai continuar sendo muito importante, porque a IA pensa, mas é o ser humano que decide. Assim como uma pessoa não deve seguir um aplicativo de rotas cegamente para dentro de uma área perigosa da cidade, as empresas precisam manter o controle final e a responsabilidade de avaliar as decisões da máquina. Essa habilidade é muito mais permanente do que as ferramentas em si. Estudos apontam que a IA vai acabar com empregos no futuro. Como você olha para isso? Sem dúvida, algumas profissões realmente deixarão de fazer sentido porque a IA passará a executar quase a totalidade desses trabalhos. No entanto, esse não é um fenômeno exclusivo dessa tecnologia. Historicamente, toda tecnologia nova substitui antigas ocupações ao mesmo tempo em que cria novas. Com a invenção da geladeira, por exemplo, os empregos na indústria do gelo acabaram; com a chegada dos carros, o mercado de charretes e cavalos diminuiu. Mas há uma grande diferença dessa revolução tecnológica para as anteriores, porque a natureza do trabalho é afetada. Enquanto as tecnologias do passado automatizavam predominantemente o trabalho físico e braçal, a IA substitui o trabalho intelectual e mental. O desenvolvedor, que usa a mente para criar um código ou sistema, agora pode ter parte de sua função substituída pela máquina. Mas, apesar disso, a perspectiva é otimista e, no saldo geral, a criação de novos empregos costuma ser positiva. A implantação de IA nos processos das empresas é cara. Como você vê esse cenário? Embora venha diminuindo, o custo de implementação da Inteligência Artificial ainda é alto. Por conta disso, muitas empresas limitam o acesso à tecnologia, disponibilizando apenas um determinado número de “tokens” de uso para cada área ou funcionário. Isso acontece porque, na prática, assim que o colaborador começa a usar a IA, ele percebe rapidamente inúmeras possibilidades de realizar seu trabalho de forma mais rápida e eficiente, o que o leva a querer utilizar a ferramenta cada vez mais. As empresas precisam gerenciar um importante trade-off: decidir o quanto investir e liberar o uso, tendo a consciência de que permitir uma fase inicial de experimentação é absolutamente necessária, mesmo que não haja um retorno financeiro imediato. Anos atrás nós vimos a chamada revolução tecnológica, onde empresas foram obrigadas a parar de funcionar em um modo analógico. O que difere aquela transformação da proposta pela IA? Em ambas as revoluções tecnológicas, as empresas se deparam com dois caminhos distintos de adoção e profundidade. Na transformação digital, as organizações podiam apenas ir para o mundo digital, como uma loja de varejo que cria um site de e-commerce, mas mantendo sua logística inteiramente dependente e amarrada à estrutura física, ou podiam mudar toda a sua estratégia para se tornarem nativamente digitais, é o caso da Magalu, por exemplo. Com a IA, ocorre uma bifurcação muito parecida: a empresa pode escolher apenas implementar algumas ferramentas pontuais para ganhar eficiência ou pode usufruir de todo o potencial estratégico da tecnologia. As que escolhem esse segundo caminho adotam um modelo mental em que a escala deixa de ser uma restrição e a IA passa a ser utilizada para aprender o tempo todo com as interações internas e externas, podendo tornar a companhia muito mais poderosa que as concorrentes. O cliente final já enxerga as empresas adotando IA em processos de atendimento ao consumidor, pré e pós-venda. Onde você vê que as companhias já estão adotando ferramentas de IA? A adoção da Inteligência Artificial vai muito além do atendimento ao cliente e já afeta profundamente a gestão, os processos internos e o trabalho intelectual das empresas. Diferenças já podem ser sentidas em rotinas administrativas, financeiras e jurídicas, quando um advogado que usa a tecnologia para ler uma petição inicial, compará-la com ações anteriores e rascunhar uma resposta, ou a modernização de controles financeiros como o fluxo de caixa; na comunicação interna e gestão do conhecimento, pois a IA aprende com absolutamente todas as interações da companhia. Isso abrange não apenas o contato externo com os consumidores, mas também as interações diárias entre os próprios funcionários, transformando o conhecimento acumulado da organização. Como convencer um empresário de que uma determinada ferramenta de IA vai se tratar de uma mudança significativa e não de uma moda passageira? As ferramentas de Inteligência Artificial evoluem de forma extremamente rápida, de modo que uma plataforma que hoje é considerada a melhor para criar fotos ou vídeos pode ser facilmente superada por outra em questão de meses. Por conta dessa rápida obsolescência, focar apenas na adoção da tecnologia em si é insuficiente. Por isso a verdadeira diferença está no modelo mental que embasa essa adoção, pois ele é muito mais permanente e perene do que a própria ferramenta. Caso a liderança da empresa adote o mindset adequado e compreenda claramente o propósito estratégico de utilizar a tecnologia, as constantes mudanças nas plataformas não conseguirão impactar o plano de longo prazo da organização. Panorama da IA nas empresas De acordo com estudo da Fundação Getúlio Vargas, a adoção de IA pelas empresas brasileiras ainda engatinha, apesar do grande conhecimento sobre as ferramentas. 99% dos dirigentes de médias e grandes empresas afirmam conhecer ou já ter tido contato com ferramentas de IA generativa, como ChatGPT e Gemini, mas apenas 35% relatam utilizá-las de forma recorrente. “Uso pouco” + “com frequência” chega a 83% nas médias e grandes, 70% nas MPEs e 48% dos MEIs. Em 63% das médias e grandes, 46% das MPEs e 42% dos MEIs, há uso de IA generativa para apoiar as atividades do negócio.
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