“Não é apelando a Deus que venceremos”

Uma declaração da primeira-dama Janja da Silva durante um comício em Teresina, no Piauí, abriu uma rara frente de críticas dentro do próprio campo petista. Ao afirmar que o presidente Lula da Silva (PT) é o “verdadeiro ungido de Deus”, Janja provocou reação de Valter Pomar, dirigente histórico da legenda e ex-secretário nacional de Relações Internacionais. Em texto publicado em seu blog, Pomar afirmou que Janja tem liberdade para expressar sua opinião, mas questionou a decisão política de recorrer a uma linguagem religiosa durante uma disputa eleitoral. Para ele, a esquerda não deveria seguir o caminho de transformar a eleição em uma disputa de caráter religioso. “Não é apelando para Deus que venceremos esta batalha”, escreveu Pomar. A crítica ocorre em meio ao aumento das referências religiosas no debate político brasileiro. A expressão usada por Janja também ganhou repercussão depois de Michelle Bolsonaro (PL) chamar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça de “escolhido e ungido do Senhor” em uma manifestação recente. Petista questiona estratégia de Janja Pomar argumentou que a utilização de argumentos religiosos pode ser contraproducente para a esquerda e lembrou que o Brasil é uma República com Estado laico. Na avaliação do dirigente petista, a esquerda deveria evitar entrar em uma disputa baseada em referências religiosas, especialmente diante da tentativa de setores da direita de transformar divergências políticas e ideológicas em uma espécie de confronto entre visões religiosas. Segundo Pomar, a disputa eleitoral deve ser travada no campo político e programático, e não a partir da ideia de que determinado candidato seria escolhido ou ungido por Deus. A crítica chama atenção justamente por partir de uma liderança histórica do PT, que não contestou apenas a forma do discurso, mas a conveniência política de associar Lula a uma imagem de escolhido divino. O que Janja disse sobre Lula A declaração ocorreu na quarta-feira (9), durante um ato político em Teresina, onde Janja exaltou realizações atribuídas ao governo federal antes de fazer a referência religiosa. A primeira-dama afirmou que Lula teria retirado novamente o Brasil do mapa da fome e destacou ações nas áreas de saúde, educação, cultura e economia. Na sequência, declarou que o presidente seria o “verdadeiro ungido de Deus” e o homem que deseja garantir uma vida digna aos brasileiros. A fala foi registrada durante o ato de campanha no Piauí e repercutiu nacionalmente. No mesmo evento, Janja também direcionou críticas à família Bolsonaro e afirmou que o grupo não teria um projeto para o Nordeste. A fala reforçou o tom de confronto eleitoral adotado no palanque. Disputa política ganha tom religioso A reação de Pomar acontece em um momento no qual expressões religiosas passaram a ocupar espaço crescente na campanha eleitoral de 2026. A referência a Lula como “ungido de Deus” ocorreu poucos dias depois de Michelle Bolsonaro utilizar linguagem semelhante para se referir a André Mendonça. Embora Janja não tenha citado diretamente Michelle ou o ministro em sua fala, a coincidência das expressões ampliou a repercussão política do discurso. Para Pomar, entretanto, a esquerda deveria evitar esse terreno. A avaliação expõe uma divergência dentro do próprio campo político de Lula sobre a melhor estratégia para disputar o eleitorado, especialmente em uma eleição na qual religião, valores conservadores e a influência do eleitorado evangélico devem continuar entre os temas relevantes. A crítica também mostra que a fala de Janja não passou despercebida entre setores do próprio PT, especialmente entre dirigentes que defendem uma abordagem mais política e programática para a disputa presidencial.
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