‘Ainda me sinto jovem para trabalhar’

Aos 101 anos, prestes a completar 102 em novembro, a educadora Aracy de Teixeira Lyra continua trabalhando na direção do Colégio Américo de Oliveira, instituição que fundou em 1953, no Rio de Janeiro. Três vezes por semana, conforme reportagem de Caio Possati, do Estadão, ela vai à escola, localizada no bairro de Marechal Hermes, na zona norte da capital fluminense, para acompanhar as atividades e orientar estudantes. “Ainda me sinto jovem para trabalhar”, afirma Aracy, que mantém uma rotina de visitas às segundas, quartas e sextas-feiras. Ela chega ao colégio por volta das 9h e retorna para casa antes das 14h. Embora já não ministre aulas regularmente, participa das decisões administrativas e pedagógicas e reserva tempo para conversar com os alunos. Uma história de mais de sete décadas na educação Natural de Vitória, no Espírito Santo, Aracy escolheu o magistério quando as oportunidades profissionais para mulheres eram mais restritas. Depois de se formar e se casar, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a preparar estudantes para ingressar no Colégio Militar, dando aulas no quintal de casa. O bom desempenho dos alunos ampliou a procura pelo trabalho da professora. Em 1953, ela fundou o Colégio Américo de Oliveira, batizado em homenagem ao pai, que considerava uma referência de educação, disciplina e dedicação à família. O que começou com pequenas turmas cresceu ao longo dos anos e se transformou em uma instituição de ensino com duas unidades. A escola também passou a reunir diferentes gerações de famílias da região, com antigos alunos que hoje têm filhos e netos matriculados. Acolhimento e orientação aos estudantes Mesmo com a idade avançada e utilizando um andador para se locomover, Aracy mantém a lucidez e a disposição para acompanhar a vida escolar. Uma de suas principais atividades é receber estudantes em sua sala, ouvir suas dificuldades e oferecer conselhos. A educadora defende que os jovens precisam de atenção e compreensão, especialmente diante das dificuldades familiares e sociais. Em um dos episódios que recorda, um aluno não conseguia fazer as tarefas de casa porque precisava acompanhar a mãe em outras atividades depois da escola. Ao conversar com o menino e compreender a situação, Aracy buscou uma solução com a família. A experiência reforçou sua preocupação com a sobrecarga enfrentada pelas mulheres, que acumulam responsabilidades domésticas e profissionais. Alimentação e cuidados com a saúde Além da dedicação à educação, Aracy atribui parte de sua longevidade aos hábitos alimentares e aos cuidados físicos e espirituais. Sua dieta inclui peixes, legumes e saladas, com pouco ou nenhum sal adicionado às refeições. A rotina também inclui sessões de fisioterapia e hidroterapia, além de atividades religiosas. Para ela, manter o equilíbrio entre os cuidados com o corpo, a espiritualidade e o trabalho contribui para preservar a disposição. O filho, Ubiratan Lyra, de 78 anos, também participa da direção do colégio. Ele deixou a carreira de engenheiro da Marinha no início da década de 1990 para se dedicar à instituição e afirma que continua aprendendo com a mãe. A trajetória de Aracy reúne mais de sete décadas de atuação na educação e o vínculo com gerações de estudantes. Para a professora, o trabalho continua sendo uma forma de contribuir para a formação de crianças e jovens, uma missão que, mesmo aos 101 anos, ela afirma exercer com amor.
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