Comando Vermelho amplia domínio e acende alerta no Nordeste

O avanço do Comando Vermelho no Ceará transformou o estado em um dos principais exemplos da expansão territorial das organizações criminosas no Nordeste. Segundo dados citados na reportagem da revista Veja, a facção já estaria presente em cerca de 80% dos municípios cearenses, enquanto especialistas que acompanham a atuação dos grupos criminosos estimam que o alcance possa chegar a 90%. O cenário coloca a segurança pública no centro do debate político no Ceará, especialmente às vésperas das eleições. A expansão da facção ocorre em meio a disputas territoriais, ameaças contra moradores, deslocamento forçado de famílias e tentativas de controle de atividades econômicas em diferentes municípios. O problema também aparece nos indicadores de violência. Dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o Ceará registrou uma taxa de 34,7 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025, a terceira maior entre os estados brasileiros, atrás de Amapá e Bahia. Maranguape lidera ranking nacional de violência Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, voltou a aparecer entre os municípios mais violentos do país. De acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2026, a cidade registrou taxa de 100,3 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025, liderando o ranking nacional entre os municípios com mais de 100 mil habitantes. Maracanaú aparece na terceira posição, com taxa de 80,7, enquanto Caucaia ocupa a sétima colocação, com 66,6 mortes violentas por 100 mil habitantes. O levantamento mostra que três municípios cearenses estão entre os dez com maiores taxas do país. Os números reforçam a dimensão do problema, embora não permitam atribuir automaticamente cada morte à atuação de uma determinada facção. Em Maranguape, por exemplo, o Anuário de 2025 apontava que o território era marcado por confrontos entre o Comando Vermelho e os Guardiões do Estado. Facção impõe regras e ameaça moradores A expansão das organizações criminosas não se limita ao tráfico de drogas. Segundo relatos reunidos pela Veja, grupos criminosos passaram a impor regras de circulação em determinadas comunidades, além de utilizar ameaças para controlar moradores e comerciantes. Em áreas dominadas por facções, pichações e mensagens deixadas em muros são utilizadas para estabelecer restrições. Moradores também relatam medo de comentar sobre a atuação dos criminosos e de circular por determinados locais. Outro mecanismo apontado é a cobrança de taxas de comerciantes e moradores. A prática, tradicionalmente associada às milícias do Rio de Janeiro, teria sido incorporada por organizações criminosas que atuam no Ceará. A utilização de aplicativos de mensagens também facilita a disseminação de ameaças e cobranças. Segundo especialistas citados pela revista, grupos criminosos podem utilizar o WhatsApp para pressionar moradores e obter dinheiro sem a necessidade de contato presencial. Porto do Pecém aumenta importância estratégica A localização geográfica do Ceará é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar o interesse das organizações criminosas pelo estado. O Porto do Pecém, localizado na Região Metropolitana de Fortaleza, possui posição estratégica para o comércio internacional e conexões com mercados da Europa e dos Estados Unidos. A infraestrutura logística também aumenta a necessidade de fiscalização para impedir que organizações criminosas utilizem a estrutura portuária para o tráfico internacional de drogas. Além do complexo portuário, o estado conta com uma extensa malha rodoviária e o Aeroporto Internacional de Fortaleza, fatores que ampliam sua importância logística. A avaliação de especialistas é que organizações criminosas procuram controlar pontos estratégicos capazes de facilitar tanto a distribuição interna quanto a saída de drogas para outros países. Violência entra na disputa eleitoral O avanço das facções já se tornou um dos principais temas da disputa política no Ceará. O governador Elmano de Freitas (PT-CE), candidato à reeleição, tem destacado a redução recente dos indicadores de violência e atribuído o resultado ao trabalho das forças de segurança. A oposição, por outro lado, utiliza a presença das organizações criminosas no estado para pressionar o governo e cobrar medidas mais duras contra as facções. O debate ocorre em um momento no qual o Ceará apresenta indicadores preocupantes, apesar da melhora registrada em alguns períodos. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que o país alcançou em 2025 a menor taxa nacional de mortes violentas desde 2012, mas a redução ocorreu de maneira desigual entre os estados. Governo atribui redução a ações policiais A gestão estadual sustenta que a redução recente da violência é resultado de investimentos em segurança, inteligência policial e integração das forças de segurança. A discussão, entretanto, permanece aberta entre especialistas. Uma das interpretações é que a redução dos homicídios em determinados períodos pode estar relacionada à mudança na dinâmica das disputas entre facções, enquanto o governo defende que o resultado decorre diretamente das ações policiais. Independentemente da explicação, a presença territorial das organizações criminosas permanece como um dos principais desafios para o Estado. Ceará virou símbolo do avanço das facções O caso cearense mostra como a atuação de organizações criminosas deixou de ser um fenômeno restrito a grandes centros urbanos e passou a alcançar municípios de diferentes portes. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que as maiores taxas de violência letal continuam concentradas principalmente no Norte e Nordeste. Em 2025, todas as dez cidades com mais de 100 mil habitantes que apresentaram as maiores taxas de mortes violentas intencionais estavam no Nordeste. No Ceará, a expansão territorial das facções representa um desafio que vai além do combate ao tráfico de drogas.
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