Comissão do INSS caminha em meio a disputas políticas e pressões cruzadas
A CPI do INSS, criada pela oposição há quase três meses, tornou-se um campo minado político no Congresso Nacional. Prevista para apurar um esquema de descontos ilegais em aposentadorias e pensões, a comissão passou a enfrentar entraves que envolvem nomes de peso da base do governo, da oposição e até do Centrão — o que fez parlamentares “pisarem em ovos” em meio ao acirramento das disputas em Brasília. A instalação da CPI do Crime Organizado, no Senado, nesta terça-feira (4), promete dividir holofotes com a comissão previdenciária e ampliar a guerra de narrativas entre aliados do presidente Lula da Silva (PT) e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Enquanto o relator Alfredo Gaspar (União Brasil-AL) tenta manter o foco nas investigações, a base governista tem barrado requerimentos que poderiam atingir o Palácio do Planalto. No último dia 9, por exemplo, o colegiado rejeitou convocações do irmão do presidente Lula, Frei Chico, e do ex-ministro da Previdência Carlos Lupi. Também foi derrubada a proposta de prisão do presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados (Sindnapi), Milton Baptista Filho, entidade em que Frei Chico é vice-presidente. Do outro lado, a oposição também enfrenta desconfortos. O avanço das apurações revelou conexões entre a Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais do Brasil) e políticos ligados ao bolsonarismo e ao Centrão. A entidade é suspeita de intermediar cobranças indevidas a beneficiários do INSS e teria repassado valores a aliados do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). A tensão cresceu quando a Polícia Federal incluiu nos inquéritos nomes próximos a dirigentes do Congresso. Alcolumbre e Motta, dois dos principais articuladores do Centrão, viram auxiliares e ex-assessores citados em relatórios da PF, o que elevou o clima de desconfiança entre os próprios aliados. Nem o ex-juiz e atual senador Sérgio Moro (União Brasil-PR) escapou dos embates. Após ser citado por supostamente ignorar denúncias quando era ministro da Justiça, Moro reagiu, acusando o governo de tentar “blindar quadrilhas” no comando do INSS durante o governo Lula. O embate entre Moro e o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, com trocas de acusações pessoais, marcou uma das sessões mais tensas da CPI. A base petista também se movimenta para atingir figuras do governo anterior. O ex-ministro Onyx Lorenzoni (PL-RS) deve ser convocado para explicar a atuação de seu filho, Pietro Lorenzoni, junto à UniBap, entidade investigada por cobranças ilegais a aposentados. Deputados ligados ao PT afirmam que a CPI deve avançar “sem blindagens”, mas o próprio relator reconhece que há um “campo de batalha político permanente” nas discussões. Para o vice-presidente da CPI, Duarte Jr. (PSB-MA), o clima de polarização tem impedido a busca por resultados concretos. “Há advogados de defesa e de acusação dentro da CPI. Uns trabalham para proteger o governo, outros para blindar Bolsonaro. O foco precisa ser a responsabilização de quem roubou aposentados, não a disputa partidária”, afirmou. Com as duas comissões agora em andamento — a do INSS e a do Crime Organizado —, o Congresso vive uma verdadeira guerra de CPIs, em que cada grupo tenta proteger seus aliados e desgastar os adversários.
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