Cúpula do Brics reaproxima líderes de Irã e Emirados Árabes

O Irã e os Emirados Árabes Unidos, cujas relações se deterioraram desde o início da guerra no Oriente Médio, querem “virar a página”, afirmou o presidente iraniano neste último domingo (13). “Pela primeira vez desde a guerra e os incidentes ocorridos no Golfo Pérsico, tivemos uma troca construtiva com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi”, disse Massoud Pezeshkian um dia após uma reunião com o xeque Khaled Bin Mohamed Bin Zayed Al Nahyan na Índia, à margem da cúpula do Brics. “Ficou combinado que viraríamos a página, olharíamos para o futuro e o construiríamos juntos”, disse Pezeshkian.  Depois que ataques de EUA e Israel ao Irã, em fevereiro, deram início à guerra no Oriente Médio, Teerã retaliou contra os aliados dos Estados Unidos na região, sendo que os Emirados Árabes foram os mais afetados. Os dois líderes questões ​regionais e internacionais, a redução da tensão, a estabilidade e os esforços para promover a paz e o desenvolvimento na região, informou a assessoria de imprensa de Abu Dhabi no X, sem mencionar qualquer resultado concreto das discussões. Em agosto, os Emirados Árabes anunciaram que estavam suspendendo as relações comerciais e financeiras com o Irã. Dubai, a maior cidade dos EAU, abriga uma comunidade iraniana profundamente enraizada e é uma importante fonte de sustento econômico para o Irã, que enfrenta dificuldades devido ao peso das sanções dos EUA e da comunidade internacional. O presidente do Irã também denunciou que a guerra contra seu país impede o acesso da população a “alimentos e medicamentos”, em referência ao endurecimento das sanções e ao bloqueio naval imposto por Washington contra Teerã. A inflação anual no Irã atingiu 89% em agosto, e 127,5% no setor de alimentos e bebidas. Emirados Árabes e Irã aderem a declaração do bloco Os dois países do Golfo aderiram, ​no sábado (12), a uma declaração conjunta do Brics que apela à moderação na guerra no Oriente Médio, em um gesto visto como um sinal de progresso diplomático entre os ​países divididos pelo conflito. É um avanço em relação a maio, quando o bloco não chegou a um entendimento sobre uma declaração conjunta por causa do conflito. A cúpula do Brics é um teste à influência diplomática de um bloco criado em 2009 para desafiar uma ordem mundial dominada pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais. Originalmente, era composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tendo se expandido para Egito, Etiópia e Indonésia, assim como o Irã e os Emirados Árabes Unidos. Além do presidente do Irã e do príncipe dos Emirados, a cúpula também conta com a presença dos presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, além do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. O Brasil está sendo representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Os organizadores da cúpula e diplomatas têm se ​concentrado em superar a divisão entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, mesmo com os Estados Unidos e o Irã retomando ataques recíprocos na guerra que já dura seis meses. A declaração de 45 páginas contém um parágrafo sobre a guerra no Irã. Ela expressa “profunda preocupação” com a escalada no Oriente Médio e apela à “máxima moderação”. Nenhum país é citado nominalmente nem responsabilizado. A guerra envolve diretamente três membros do bloco (Irã, Emirados Árabes e Arábia Saudita), que estão em lados opostos do conflito. Disputas internas vão além da guerra no Irã Foi a primeira viagem de Xi Jinping à Índia em sete anos, uma visita que incluiu uma reunião com Modi e que representa um novo passo na normalização das relações bilaterais iniciada em 2024 entre os dois países. Em 2027, a China assume a presidência do bloco. As relações entre Índia e China ficaram congeladas após um confronto mortal na fronteira entre os dois países na região do Himalaia, em 2020. Tanto Modi quanto Xi desejam um mundo mais multipolar e menos domínio ocidental sobre o sistema financeiro global. Mas os dois países abordam a questão a partir de posições muito diferentes. A China é a segunda maior economia do mundo, com forças armadas poderosas e assertivas. O foco de Pequim é fazer frente a Washington. A Índia, por sua vez, busca uma política de alinhamentos múltiplos e autonomia estratégica, estabelecendo laços com a Rússia, os EUA e a União Europeia por diferentes motivos, sem se aliar ao campo da China. A desconfiança persiste, especialmente em relação à fronteira disputada e a quem terá influência na Ásia. O enorme déficit comercial da Índia com a China agrava ainda mais a situação. A China foi fundamental para a expansão no Brics de cinco para 11 membros. Xi agora quer estreitar os laços dentro do bloco, por meio da cooperação em tecnologias do futuro, indústrias e cadeias de abastecimento resilientes. A ideia é transformar o Brics ampliado em uma rede mais integrada do Sul Global – tecnologicamente e, eventualmente, geopoliticamente. Assim como a China, a Índia deseja que o Brics dê mais voz ao Sul Global. Mas não quer que o bloco se torne uma aliança antiocidental liderada pela China, o que vem causando a principal tensão no cerne do grupo.
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