Lula prepara debandada histórica e pode perder mais de 20 ministros até abril

Com as eleições de 2026 no horizonte, o governo Lula da Silva (PT) caminha para uma das maiores debandadas ministeriais desde a redemocratização. Mais de 20 ministros devem deixar seus cargos até o início de abril para disputar governos estaduais, vagas na Câmara dos Deputados e no Senado, escancarando o caráter eleitoral do atual desenho do primeiro escalão. Pela legislação eleitoral, ministros que pretendem concorrer precisam se desincompatibilizar até seis meses antes do pleito. O prazo final se encerra em 4 de abril, o que transforma os próximos meses em um período de esvaziamento acelerado da Esplanada dos Ministérios. A tendência é que diversas pastas fiquem sob comando interino, concentrando poder em secretários-executivos e ampliando a instabilidade administrativa. Projeto eleitoral acima da gestão O movimento revela a prioridade absoluta do Planalto. Mais do que governar, o foco central é montar um exército de candidatos para tentar reverter a fragilidade da base governista no Congresso e pavimentar o caminho para um eventual quarto mandato de Lula. Na última reunião ministerial do ano passado, o presidente deixou claro o recado aos auxiliares. Quem for disputar eleição precisa ganhar o cargo que pretende concorrer. A orientação soou menos como estímulo democrático e mais como cobrança política em um governo que aposta todas as fichas na sobrevivência eleitoral. Corrida aos governos estaduais Entre os nomes já definidos, o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB-AL), deixará o cargo para tentar retornar ao governo de Alagoas, posto que já ocupou por dois mandatos consecutivos. A saída é tratada como certa e reforça a leitura de que ministérios se tornaram trampolins eleitorais. Outros ministros ainda avaliam disputar governos estaduais, especialmente em estados estratégicos para o PT e seus aliados, o que deve aprofundar a fragmentação do governo federal nos próximos meses. Disputa pesada pelo Senado O Senado é tratado como prioridade máxima pelo Palácio do Planalto. Em 2026, 54 das 81 cadeiras estarão em disputa, e o governo vê na candidatura de ministros uma tentativa de frear o avanço da oposição. Entre os cotados estão Rui Costa (PT), atual chefe da Casa Civil, Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), de Portos e Aeroportos, e Waldez Góes (PDT-AP), da Integração e do Desenvolvimento Regional. Também figuram na lista Simone Tebet (MDB-MS), hoje no Planejamento, Marina Silva, do Meio Ambiente, Carlos Fávaro (PSD-MT), da Agricultura, e Alexandre Silveira (PSD-MG), de Minas e Energia. Em alguns casos, há discussões sobre mudança de domicílio eleitoral, o que amplia críticas internas sobre artificialidade das candidaturas e distanciamento das bases locais. Câmara vira plano B de ministros Na Câmara dos Deputados, a movimentação também é intensa. Gleisi Hoffmann (PT-PR), das Relações Institucionais, já decidiu disputar a reeleição. O mesmo caminho deve ser seguido por André de Paula (PSD-PE), Paulo Teixeira (PT-SP) e Wolney Queiroz (PDT-PE). Também aparecem como pré-candidatos Jader Filho (MDB-PA), Anielle Franco (PT-RJ), Macaé Evaristo (PT-MG) e Sônia Guajajara (PSol-SP). No PT, há ainda a expectativa de filiação da ministra da Cultura, Margareth Menezes, para disputar uma vaga pela Bahia, movimento incentivado diretamente por Lula. Saídas estratégicas e crises internas Nem todas as baixas estão ligadas à disputa eleitoral. Sidônio Palmeira deixará a Secretaria de Comunicação Social para comandar o marketing da campanha de Lula, repetindo o papel exercido em 2022, em mais um sinal de que o governo já opera em modo eleitoral. A saída mais sensível até agora foi a do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que deixou o cargo alegando motivos pessoais. A pasta permanece sob comando interino, ampliando o clima de indefinição em uma área estratégica. Incertezas no núcleo duro Fernando Haddad (PT-SP), da Fazenda, é tratado como o nome mais forte do PT para disputar o governo de São Paulo ou o Senado, mas resiste à candidatura e já sinalizou desejo de deixar o cargo. Mesmo assim, segue pressionado por Lula e pela cúpula petista. Situação semelhante envolve Geraldo Alckmin (PSB-SP), vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, que também é cotado para disputar cargos em São Paulo, em disputa direta com Márcio França (PSB-SP), que trabalha nos bastidores para viabilizar sua própria candidatura. No Nordeste, Camilo Santana (PT-CE) avalia se retorna ao Senado ou se tenta novamente o governo do Ceará. Já André Fufuca (PP-MA), do Esporte, mantém em aberto a possibilidade de disputar o governo do Maranhão ou uma vaga no Senado. Governo em modo campanha A iminente saída em massa de ministros evidencia um governo cada vez mais voltado para a disputa eleitoral e menos para a gestão cotidiana do país. Com ministérios esvaziados, comandos interinos e decisões adiadas, a Esplanada se transforma em um grande comitê político, enquanto Lula aposta todas as fichas na reconstrução de uma base parlamentar que nunca conseguiu consolidar desde o início do mandato.
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