Mineração pode colocar Brasil no protagonismo global, diz presidente do Ibram

A mineração brasileira pode colocar o país em uma posição de maior protagonismo na economia global nas próximas décadas, segundo Pablo Cesário, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em entrevista ao Estadão, o executivo afirmou que a crescente demanda por minerais críticos, terras raras e matérias-primas utilizadas em tecnologias de alta complexidade cria uma oportunidade estratégica para o Brasil. A avaliação ocorre em um momento de expansão do setor mineral. Dados do Ibram mostram que a mineração faturou R$ 150,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 8,2% em relação ao mesmo período do ano passado. O setor também gerou um superávit de US$ 20,3 bilhões na balança comercial, equivalente a 48% do saldo comercial brasileiro no período. Para Cesário, a mudança na matriz energética mundial está alterando o papel da mineração. A expansão da energia solar, eólica, nuclear, da eletrificação e de tecnologias como inteligência artificial e data centers aumenta a necessidade de minerais utilizados na produção de equipamentos e sistemas de alta tecnologia. O próprio Ibram tem defendido que a mineração será essencial para atender ao crescimento da demanda energética mundial. “O Brasil tem a capacidade de ser protagonista global mais uma vez, e a mineração é uma plataforma para isso”, afirmou o executivo ao Estadão. Minerais críticos entram no centro da disputa global Na avaliação de Cesário, a mineração deixou de estar associada apenas à produção de minério de ferro, aço e produtos químicos. O setor passou a ocupar uma posição estratégica para a geração de energia e para o desenvolvimento de tecnologias consideradas fundamentais para a economia do futuro. Entre os minerais que ganham importância estão terras raras, cobre, vanádio e tungstênio. O cobre, por exemplo, teve forte valorização no primeiro semestre de 2026. O faturamento do segmento chegou a R$ 20,6 bilhões, crescimento de 41% em relação ao mesmo período de 2025. O ouro também avançou, com faturamento de R$ 25,3 bilhões, alta de 44,2%. Enquanto isso, o minério de ferro, principal produto da mineração brasileira, registrou queda de 3,1% no faturamento, embora tenha permanecido responsável por 47,2% da receita total do setor no primeiro semestre, com R$ 71,2 bilhões. Brasil precisa acelerar investimentos Para transformar as reservas minerais em desenvolvimento econômico, Cesário defende uma estratégia de longo prazo, com investimentos em tecnologia, indústria, formação profissional e financiamento. Um dos principais obstáculos apontados pelo presidente do Ibram é o tempo necessário para transformar uma descoberta mineral em uma mina em operação. Segundo ele, o prazo médio no Brasil chega a 17 anos, enquanto a média mundial é de aproximadamente 15 anos. Em alguns países, o processo pode ser concluído em sete ou oito anos. A proposta do setor, segundo Cesário, não é reduzir o rigor ambiental, mas tornar os processos de licenciamento mais previsíveis e eficientes. “O que a gente quer é que o processo seja mais ágil, inclusive para viabilizar os negócios”, afirmou. Outro problema está na falta de conhecimento geológico. Segundo o executivo, apenas 28% do território brasileiro é conhecido na escala necessária para pesquisas minerais. A dificuldade de acesso a áreas para prospecção também limita a possibilidade de descoberta de novas reservas. Terras raras são oportunidade estratégica As terras raras aparecem entre os principais ativos que podem ampliar a relevância do Brasil na economia global. Esses minerais são utilizados em ímãs permanentes, equipamentos eletrônicos, tecnologias de energia limpa e diversos produtos de alta tecnologia. O desafio, entretanto, não está apenas em extrair o minério, mas também em desenvolver capacidade nacional de processamento e industrialização. Segundo Cesário, mais de 90% do processamento de terras raras pesadas, utilizadas principalmente na produção de ímãs permanentes, está concentrado na China. O Brasil, porém, possui condições consideradas favoráveis para disputar espaço nessa cadeia. O país tem reservas, empresas com experiência no setor mineral, indústria química e uma rede de universidades e centros de pesquisa. Em março, o Ibram discutiu justamente oportunidades de investimentos e cooperação tecnológica em minerais críticos e terras raras com a Embaixada da China. A entidade destacou que esses projetos exigem grandes volumes de capital e ciclos longos de maturação. Financiamento é um dos gargalos Outro desafio apontado pelo Ibram é a dependência de capital estrangeiro para financiar a mineração brasileira. Cesário defende a criação de mecanismos semelhantes ao Flow-Through Shares, adotado em países como Canadá e Austrália, que permite considerar investimentos realizados durante a fase de pesquisa mineral para fins tributários quando o projeto começa a gerar receita. A justificativa é que a atividade mineral exige investimentos elevados antes de qualquer garantia de retorno. Para cada grande descoberta, milhares de pesquisas e perfurações podem não resultar em uma mina economicamente viável. Segundo o executivo, existem projetos em tramitação no Congresso para tentar enfrentar essa dificuldade. Mineração busca reduzir impactos ambientais Cesário também reconheceu que a atividade mineral provoca impactos ambientais e sociais e afirmou que o setor precisa avançar na busca por um chamado impacto líquido positivo. A discussão envolve medidas de mitigação, compensação ambiental, desenvolvimento econômico das regiões produtoras e utilização mais eficiente dos recursos gerados pela atividade. O presidente do Ibram também destacou a necessidade de transformar a riqueza mineral em um legado permanente para as comunidades. Como os recursos minerais são finitos, a avaliação é que os municípios produtores precisam utilizar parte dessa riqueza para desenvolver outras atividades econômicas. Segurança de barragens ganhou prioridade As tragédias de Mariana e Brumadinho também foram citadas como marcos para a transformação da atividade mineral no país. Segundo Cesário, a segurança operacional se tornou uma prioridade no setor, com ampliação do monitoramento de barragens por meio de sensores, imagens e centros de comando e controle. O setor também passou a buscar alternativas às estruturas tradicionais de armazenamento de rejeitos, incluindo sistemas de disposição em pilhas. O objetivo é reduzir riscos e aumentar a capacidade de monitoramento das estruturas. Mineração pode ganhar peso na economia do futuro Na avaliação de Cesário, a mineração brasileira deverá se tornar ainda mais tecnológica nos próximos 15 anos, com expansão da automação, operações remotas e diversificação dos produtos extraídos. O cenário internacional também pode favorecer o Brasil. A reorganização das cadeias globais de fornecimento aumentou a busca de países e empresas por fornecedores considerados confiáveis e estáveis. Para o presidente do Ibram, o Brasil reúne reservas minerais, capacidade produtiva e relações comerciais com grandes potências, fatores que podem ampliar sua relevância na disputa por minerais críticos. O setor, que já responde por uma parcela expressiva das exportações brasileiras, busca agora transformar essa vantagem geológica em maior capacidade tecnológica e industrial. O desafio será aproveitar a crescente demanda mundial sem repetir modelos de exploração que deixem apenas a extração como legado. A avaliação de Cesário é que o Brasil tem uma oportunidade que pode não se repetir. Para aproveitá-la, será necessário acelerar investimentos, ampliar o conhecimento geológico, formar profissionais, melhorar o ambiente regulatório e desenvolver tecnologia para que uma parcela maior da riqueza mineral seja transformada dentro do próprio país.
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