O que é produtividade e por que ela é menor no Brasil do que em outros países
Qualificação dos trabalhadores, burocracia estatal, instabilidade econômica e cultura são alguns dos fatores que explicam a baixa performance brasileira em comparação com outros países. Há exatos 100 anos, Henry Ford criava o fim de semana ao introduzir nas fábricas da Ford Motor Company uma escala de trabalho com dois dias de folga. “Ele era um empresário, ele não fazia por moral ou sentimento. Ele dizia que era ‘cold business fact’ e, depois de experimentar, conseguiu produzir mais carros de forma mais barata”, diz à DW Brasil o português Pedro Gomes, professor de economia na Birkbeck, Universidade de Londres. Um século após “a dura realidade dos negócios” dita por Ford, discussões sobre eficiência no trabalho têm se intensificado. No ranking com 184 países, o Brasil ocupa a 94ª posição em produtividade. Calculado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), o índice é obtido ao dividir o Produto Interno Bruto (PIB) em dólar pelo total de horas trabalhadas pela população economicamente ativa de cada país.” A ideia é quanto de unidade cada trabalhador consegue agregar de valor por cada hora que ele está ofertando de trabalho”, explica Silvia Maria Matos, economista e coordenadora do Boletim Macro IBRE na Fundação Getúlio Vargas (FGV). O mercado de trabalho brasileiro produz em média US$ 21,2 por hora trabalhada. Em comparação com o grupo dos sete países mais desenvolvidos do mundo, a média é de US$ 74,6, com os Estados Unidos na liderança (US$ 81,8, 13ª posição) e o Japão em último (US$ 52,7, 40º). Silvia Matos diz que nesses casos é sempre importante comparar o Brasil com países com uma realidade semelhante. Mesmo assim, o resultado não é favorável. O país fica abaixo de Uruguai (US$ 38), Chile (US$ 34,4), Argentina (US$ 33,8) e Cuba (US$ 22,6). “Em 1950, um trabalhador brasileiro representava 25% de um trabalhador americano, e hoje continua o mesmo valor. Ou seja, a gente ficou estagnado em relação aos Estados Unidos. A Coreia do Sul era até mais pobre que o Brasil nos anos 1980 e, rapidamente em poucos anos, conseguiu passar de um país de renda baixa a um país desenvolvido”, conta Matos. Qualificação dos trabalhadores, burocracia estatal, instabilidade econômica e cultura são alguns dos fatores que explicam a baixa performance produtiva do Brasil. “Se eu trazer um trabalhador americano aqui para o Brasil, ele não vai produzir a mesma coisa que ele produz lá. Ele pode ser melhor que um trabalhador brasileiro, mas não depende só dele. Tem muito a ver com o ambiente que ele está”, diz Silvia. Horas de trabalho Há duas definições de produtividade: por trabalhador, que soma quanto uma pessoa consegue produzir; e por hora trabalhada, quanto que se consegue produzir por uma hora de trabalho. “O que se verifica nas empresas é que a relação não é linear. Ou seja, quando se trabalha mais, a partir de uma certa altura começam a acontecer erros e a trabalhar com menos intensidade. E, portanto, o cansaço começa a dominar”, afirma Pedro Gomes. De acordo com a OIT, os brasileiros trabalham em média 38,9 horas por semana, valor inferior ao de 97 nações integrantes do ranking. Em países que crescem em ritmo acelerado, como a China (46,1h), a Índia (45,7h) e até o México (42,2h), as pessoas trabalham uma média de horas maior. Silvia Matos lembra que o caso da China é uma realidade difícil de se inspirar, já que o país vive uma ditadura e não havia bem-estar social. “A gente também não tem que olhar só o lado do resultado, a gente tem que pensar qual foi o sofrimento desses chineses para poder gerar uma boa sociedade.” Escala 6 x 1 Impulsionado pelo vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), líder do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), e pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o debate sobre o fim da escala 6 x 1, em que o trabalhador tem direito a uma folga por semana, tem ganhado cada vez mais adesão dentro e fora da política. Sobre a medida, Silvia Matos pede cautela, porque cada setor tem um método de trabalho. Segundo ela, dependendo da imposição, vai aumentar o número de trabalhadores informais, já que quem oferece trabalho, devido à possibilidade de contratar mais mão de obra para cobrir folgas, vai preferir contratar informais em vez de arcar com custos exigidos nos direitos trabalhistas. Enquanto os trabalhadores formais têm mais acesso a inovação e segurança, os informais são menos produtivos porque em geral não têm acesso a crédito e não conseguem investir em equipamentos tecnológicos. Apesar disso, segundo Silvia Matos, muitos deles preferem continuar na informalidade, porque na formalidade teriam que pagar mais impostos. Já Pedro Gomes cita exemplos europeus para defender a redução da jornada de trabalho. Em Portugal, a redução legal de 44 para 40 horas semanais em 1996 levou a uma diminuição de cerca de 10% nas horas trabalhadas por trabalhador, acompanhada por um aumento aproximado de 8% na produtividade por hora. Na França, a redução de 39 para 35 horas em 2000 resultou em uma queda de cerca de 6% nas horas trabalhadas por trabalhador, mas também esteve associada a uma redução de aproximadamente 1% no valor adicionado por trabalhador. Ele afirma que a medida tende a reduzir doenças cardiovasculares e estresse de burnout, além de aquecer alguns setores. “Tempo livre não é tempo morto para a economia. As indústrias de entretenimento vão se beneficiar, porque para consumir nós precisamos de mais tempo livre”.
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