Ouro em alta não destrava novos projetos no Brasil, aponta setor mineral
O preço do ouro em patamares elevados aumentou o interesse de investidores pelo setor mineral brasileiro, mas não eliminou os obstáculos para transformar novas descobertas em minas em operação. Esse foi um dos principais pontos discutidos no seminário “Além das Onças: presente e futuro dos projetos de ouro no Brasil”, realizado pela Brasil Mineral em 22 de setembro, em São Paulo. Na data do evento, a onça do ouro era negociada em torno de US$ 4.300, após ter atingido US$ 5.589 em janeiro de 2026, segundo os dados apresentados no encontro. Mesmo com o cenário favorável de preços, executivos apontaram que licenciamento, conhecimento geológico, necessidade de capital e sustentabilidade continuam entre os principais desafios para novos projetos. Brasil leva até 17 anos para abrir uma mina Gilberto Azevedo, vice-presidente sênior de Novos Negócios da Kinross Brasil, destacou que o tempo médio entre a descoberta de um depósito e o início da operação chega a 17,3 anos no Brasil, contra 16 anos na média mundial. Em países considerados mais ágeis, esse intervalo fica entre 12 e 14 anos. . Foto: Stefanne Senne O prazo se aproxima da relação entre reservas e produção global. Segundo os dados apresentados por Azevedo, as reservas mundiais somam cerca de 2 bilhões de onças, enquanto a produção anual é de aproximadamente 104 milhões de onças, o equivalente a cerca de 20 anos de produção. “A relação reserva/produção é de 20 anos, muito próximo desse lead time de 16 anos. Então a gente tem essa pressão por tempo para a reposição das reservas”, afirmou o executivo. Licenciamento e capital estão entre os gargalos Na avaliação apresentada no seminário, o licenciamento é um dos fatores que mais influenciam o prazo de implantação dos projetos, principalmente pela dificuldade de prever os períodos necessários para obtenção das autorizações. Outro obstáculo é o conhecimento geológico. Apenas 28% do território brasileiro está mapeado na escala de 1:100.000, considerada mais detalhada, enquanto 53% possui mapeamento na escala de 1:250.000. A falta de informações mais detalhadas aumenta a incerteza e pode elevar o custo da pesquisa mineral. . Foto: Stefanne Senne O financiamento também pesa. Projetos de mineração podem passar muitos anos sem gerar receita antes de entrar em operação, exigindo capital durante um longo período. No segundo painel do seminário, Lucas Laghi, da XP, apontou a taxa básica de juros brasileira, então em 13,75% ao ano, como um dos fatores que dificultam o financiamento de projetos de ouro. Demanda de bancos centrais ganha força Outro destaque foi a mudança na composição da demanda mundial. De acordo com os dados apresentados por Azevedo, bancos centrais e investidores respondiam por aproximadamente 40% da demanda por ouro em 2010. Em 2025, essa participação chegou a cerca de 60%. As compras líquidas dos bancos centrais também permaneceram elevadas nos últimos anos. Foram 1.082 toneladas em 2022, 1.037 toneladas em 2023, 1.045 toneladas em 2024 e 863 toneladas em 2025, segundo os dados do World Gold Council apresentados no evento. O cenário reforça a procura por novos ativos, mas o setor avalia que preços elevados, por si só, não são suficientes para acelerar a abertura de minas. O longo ciclo dos projetos exige planejamento financeiro, maturidade técnica, previsibilidade regulatória e capacidade de sustentar investimentos durante anos. Na Kinross, Azevedo afirmou que a empresa trabalha com projeções conservadoras e não utiliza o preço à vista do ouro como referência para decisões de médio e longo prazo. A operação de Paracatu, em Minas Gerais, deve produzir pouco mais de 600 mil onças em 2026, segundo o executivo.
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