Relatório aponta desafios estruturais na Embrapa, estatal contesta diagnóstico e destaca avanços

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) voltou ao centro do debate sobre o futuro da pesquisa agrícola no Brasil após a divulgação de um relatório que aponta desafios estruturais e de gestão enfrentados pela instituição. O estudo alerta para riscos de perda de capacidade científica e de inovação, enquanto a estatal rebate as conclusões e afirma que já implementa medidas para modernizar sua estrutura, ampliar investimentos e fortalecer áreas estratégicas, como inteligência artificial e agricultura digital. Elaborado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED), com participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialistas da própria Embrapa, o documento foi produzido entre 2023 e 2024 e divulgado inicialmente pela Folha de S.Paulo, com informações também publicadas por O Globo. O relatório, intitulado “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias”, afirma que a instituição enfrenta um processo de “deterioração silenciosa” de suas capacidades de pesquisa. Entre os principais pontos levantados estão a redução dos recursos destinados à pesquisa científica, dificuldades para renovar o quadro de pesquisadores, burocracia nos processos administrativos e obstáculos para atrair profissionais especializados em inteligência artificial, ciência de dados e tecnologias digitais. Segundo o estudo, os investimentos destinados diretamente às pesquisas caíram de aproximadamente R$ 400 milhões, em 2010, para R$ 65 milhões em 2024. Também houve redução no orçamento de custeio, utilizado para manutenção de laboratórios, infraestrutura e campos experimentais, que passou de R$ 633,8 milhões, em 2011, para R$ 299,7 milhões em 2025. Os pesquisadores apontam ainda que parte significativa dos servidores está concentrada no topo da carreira, o que eleva os custos da folha salarial e dificulta a renovação dos quadros. O documento também avalia que a estatal precisa acelerar sua adaptação às novas tecnologias, especialmente nas áreas de inteligência artificial, agricultura digital e integração de sistemas de informação. Outro aspecto destacado é a extensa estrutura da empresa, formada por 43 centros de pesquisa distribuídos em diferentes regiões do país. Embora essa capilaridade seja considerada um dos maiores patrimônios da Embrapa, o relatório sustenta que a coordenação entre as unidades perdeu eficiência ao longo dos anos, gerando burocracia, sobreposição de projetos e dificuldades para acelerar pesquisas. Apesar das críticas, o estudo reconhece a importância histórica da Embrapa para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro. As pesquisas da instituição foram decisivas para transformar o Cerrado em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo, permitindo a expansão de culturas como soja, milho, algodão e sorgo por meio de tecnologias de correção do solo e desenvolvimento de cultivares adaptadas às condições tropicais. Outro marco destacado é a técnica de fixação biológica de nitrogênio, que reduziu significativamente a dependência de fertilizantes químicos, gerando economia para os produtores e benefícios ambientais. A empresa também mantém um dos maiores bancos de germoplasma vegetal da América Latina, com cerca de 126 mil amostras de mais de 1.200 espécies. Especialistas consultados pelo relatório afirmam que a Embrapa enfrenta desafios semelhantes aos de outras instituições públicas de excelência no Brasil, pressionadas por restrições orçamentárias, mas que continuam exercendo papel estratégico para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Em nota oficial, a Embrapa contestou as conclusões do estudo e afirmou que o diagnóstico não representa a realidade atual da instituição. A empresa destacou que realizou concurso público em 2024 para recompor seu quadro técnico, com mais de mil profissionais convocados até o momento, muitos deles especializados em inteligência artificial, ciência de dados, agricultura digital e rastreabilidade. A estatal também informou que vem ampliando investimentos em inovação, citando o desenvolvimento de tecnologias como a soja resistente à seca por edição genética, a Soja Baixo Carbono e o Leite Baixo Carbono, este último desenvolvido em parceria com a Nestlé. Segundo a empresa, os recursos destinados às atividades de inovação cresceram desde 2023, e o Núcleo de Inovação Tecnológica trabalha para ampliar a captação de recursos junto ao setor privado, reduzindo a dependência do orçamento federal. O debate ocorre em um momento em que o agronegócio brasileiro enfrenta novos desafios ligados às mudanças climáticas, à transformação digital no campo e à necessidade de aumentar a competitividade internacional, fatores que reforçam a relevância estratégica da Embrapa para o futuro da produção agrícola nacional.
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