Tensão no governo Lula após propostas para centralizar combate ao crime organizado

O governo Lula enfrenta mais uma crise interna, desta vez provocada por propostas que sugerem transferir para o Palácio do Planalto a coordenação da resposta federal ao crime organizado — movimento que, na prática, esvaziaria o papel do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Duas ideias apresentadas recentemente geraram mal-estar na Esplanada e no PT. A primeira partiu do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Pereira, que propôs a criação de uma “Aliança Contra o Crime pela Paz”, iniciativa para articular ações de segurança sob liderança direta da Presidência. A proposta foi levada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante uma reunião em Belém, que contou com a presença de Rui Costa, Gleisi Hoffmann, Guilherme Boulos e do próprio Lewandowski — que, segundo relatos, teria recebido a ideia com evidente desconforto. A segunda proposta veio de um grupo de juristas de esquerda liderado pelo ex-ministro Tarso Genro, que defende a criação de uma Secretaria Especial de Segurança Pública vinculada à Presidência. Em carta dirigida a Lula, o grupo pediu que o presidente “assuma pessoalmente” o comando da política de segurança nacional. Ambas as sugestões, no entanto, foram interpretadas como críticas indiretas à atuação de Lewandowski, especialmente após a operação policial no Rio de Janeiro, que resultou em confrontos e reacendeu o debate sobre o papel do governo federal em ações estaduais. Nos bastidores, ministros e dirigentes petistas consideraram um erro envolver Rui Costa — atual ministro da Casa Civil — em qualquer nova estrutura de segurança. O motivo: durante seu governo na Bahia, os casos de mortes causadas por policiais cresceram 313% entre 2015 e 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No último ano de sua gestão, 11 das 20 cidades mais violentas do país estavam em território baiano. Dentro do Planalto, aliados de Lula alertam que a criação de uma nova secretaria reacenderia a promessa não cumprida de criar o Ministério da Segurança Pública, engavetada por resistência dos ex-ministros Flávio Dino e Lewandowski. “Agora é tarde para isso. E ainda colocaria o problema no colo do governo federal, quando é responsabilidade do Rio”, avaliou um interlocutor próximo ao presidente. A carta dos juristas também dividiu o campo progressista. Ex-ministros como José Eduardo Cardozo e Luiz Paulo Barreto preferiram não assinar o documento, e integrantes do grupo Prerrogativas, que teve papel central na reabilitação política de Lula, também se distanciaram da ideia. Entre aliados e críticos, o consenso é que a discussão revelou rachaduras internas sobre o rumo da política de segurança pública e o peso político de Lewandowski no governo. Enquanto o presidente busca um discurso de pacificação, cresce nos bastidores a disputa por quem realmente comandará a agenda de combate ao crime no país.
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